Tradição e Mudança


Autoria

Roger T. Soares

Data da Publicação

21/02/2006



Resumo

A Umbanda é uma unidade aberta. A força de sua Tradição está em saber o que deve ser preservado e o que precisa ser renovado.


Texto

O Movimento Umbandista vem evoluindo incessantemente desde suas primeiras manifestações há mais de um século. Hoje podemos dizer que as pessoas que frequentam a Umbanda o fazem por força de uma escolha consciente, a de adotar a Umbanda como seu caminho para a realização espiritual.

 

Ainda que muitos, nos primeiros contatos com o templo, procurem a resolução dos conflitos mais emergentes e imediatos, como aqueles relacionados com o campo material, afetivo, da saúde física ou mental e das interferências espirituais externas, observamos que boa parte desses novatos permenecem na Umbanda mesmo depois de obterem aquilo que vieram procurar e se estabelecem na Tradição,na busca da evolução espiritual.

 

Como diz F. Rivas Neto – Mestre Arhapiagha, a Umbanda é uma unidade aberta. É uma unidade porque apesar da imensa diversidade existente entre os templos e as práticas de cada lugar, existe uma certa coesão mantida por princípios universalmente distribuídos nesse movimento, particularmente no que se refere à mediunidade e ao contato com a forças sutis da natureza consideradas sempre sagradas. É qualificada como aberta porque:

  • não se encontram limites precisos entre uma forma e outra de se praticar Umbanda,
  • o processo de sincretismo impede a existência de fronteiras rígidas que separem a Umbanda das demais religiões,
  • a Umbanda está em constante renovação, expansão e reconstrução, não sendo limitada por dogmas ou instituições estáticas.

Ao assumirmos a Umbanda como caminho de evolução espiritual, assumimos também alguns compromissos que precisam ser renovados a cada dia, na prática da espiritualidade. Temos o compromisso com os mentores dos planos espirituais superiores que nos assistem com suas vibrações espirituais na expectativa que sejamos veículos da espiritualidade para nossa coletividade planetária. Também temos a responsabilidade de preservar os conhecimentos espirituais e transmiti-los à nossa família humana, sem agir de maneira proselitista, mas adotando uma postura de doação de si mesmo aos outros. Por fim, seremos tolos se tivermos essas oportunidades magníficas e não aproveitarmos para impulsionar nosso próprio crescimento espiritual. Para tanto, precisamos praticar diuturnamente as virtudes da simplicidade, da pureza e da humildade, incorporando  os ensinamentos dos espíritos ancestrais e nos liberarmos das paixões, do egoísmo e da ignorância que impedem nossa evolução.

 

Isso requer esforço contínuo, disciplina, determinação e um certo grau de renúncia.Se tivermos sucesso nesse intento, saíremos dessa encarnação melhores do que quando entramos.

 

Nesse sentido, devemos sempre agradecer a oportunidade que nosso pais físicos nos concederam de encarnar. Agradecemos também as capacidades físicas, mentais e espirituais que temos para o aprendizado dos ensinamentos que nos são passados e, por fim, mas tão importante quanto, agradecemos por termos um pai ou mãe espiritual que nos ensina o caminho, transmitindo-nos sua experiência e sabedoria.

 

Essa é atitude que devemos ter no que se refere à nossa ascendência. E quanto a nossa descendência?

 

Se tivermos filhos físicos e, principalmente, se tivermos filhos espirituais e a tarefa de lhes transmitir o patrimônio espiritual que recebemos, devemos nos lembrar que no caminho espiritual vencemos obstáculos para conseguir o aprendizado efetivo da transmissão espiritual e que disso resulta nossa experiência. Devemos ter, então, a capacidade de transmitir essa experiência para nossos filhos desde a infância ou desde o início do caminho espiritual, para que atinjam o patamar que atingimos, se possível, mais cedo que nós e possam então ir além de nós, ampliando as conquistas espirituais de nossa coletividade planetária. O melhor que pode acontecer é isso, que nossa descendência vá além de nós mesmos e possa nos devolver, quando reencarnarmos mais uma vez, essa Tradição renovada e ampliada, formando assim um ciclo de crescimento contínuo para todos.

 

Essa é a forma como a Umbanda vê a Tradição. Ainda que as verdades espirituais últimas sejam transcendentes e imutáveis, nosso acesso ao incomensurável é limitado e, talvez, bastante reduzido. Dessa maneira, temos que preservar com devoção e cuidado o que já conquistamos, mas não nos determos em dogmas ou estruturas rígidas, para que possamos avançar e ampliar nossas percepções espirituais.

 

Como a Umbanda é uma unidade aberta, cada pequeno pingo de tinta que se acrescenta ao quadro que a representa muda o quadro como um todo, redimensionando os valores de cada pequeno espaço. A paisagem é extensa, o horizonte é vasto e a Tradição sempre mutável.

 



Palavra Chave

Tradição - Mudança - Dogmas



Bibliografia

Umbanda - a Proto-síntese Cósmica - F. Rivas Neto - Editora Pensamento