Sobre a diversidade
Autoria
Roger T. Soares
Data da Publicação
21/02/2006
Resumo
Esse texto traz discussão filosófica e espiritual sobre a questão da diversidade existente na Umbanda, seja entre os praticantes ou entre as formas de transmissão espiritual, as chamadas escolas umbandistas.
Texto
Compreender e trabalhar com a diversidade requer além de uma grande medida de disposição, o conhecimento teórico e prático e, diria, o desenvolvimento de um método para conseguir que o processo seja frutífero e benéfico a todos.
Para começar, é preciso compreender, como Pai Rivas nos ensina, que a diversidade é uma condição material, fundada nas peculiaridades da vida encarnada. Isso significa que é uma condição transitória, como tudo o que é material, e que deve ser encarada com tal. Podemos afirmar que na essência espiritual somos todos iguais e podemos dizer isso por compreender que o espírito é imaterial , adimensional e atemporal, portanto sem a qualidade de manifestar atributos e sem basear a identidade na relação do eu com o não-eu. No momento que nos vestimos dos veículos de manifestação da consciência(corpo físico, astral e mental) surge a diversidade e a pluralidade que se expressa no mundo material.
Já que a diversidade é transitória, como devemos tratá-la? Que valor devemos dar a ela?
Temos dois aspectos: um teleológico e outro ontológico.
No aspecto teleológico, acreditamos que exista um propósito na estruturação dos nossos corpos físico, astral e mental que apresentam caracterísiticas de diversidade e de transitoriedade que se desenvolvem na forma de processos de transformação contínua que definem, subjetivamente, a dimensão temporal da existência. Valorizar a diversidade do ponto de vista teleológico significa compreender que a vida física existe com um propósito que, para nós, é o da evolução espiritual. Portanto, devemos valorizar a vida física e suas características como um meio ou veículo para a conquista do crescimento espiritual. Não podemos nem negar os valores materiais como algumas filosofias fazem, nem elevá-los ao status de objetivo ou finalidade da existência. Assim, se existe diversidade, é porque ela atende, como veículo, às necessidades particulares de evolução de cada ser, seja quando falamos de diversidade individual nas diferenças existentes entre as pessoas, ou diversidade de grupos ou coletividades, quando falamos em pluralidade cultural. Esse dois aspectos acontecem no meio umbandista naquilo que denominamos como as escolas ou formas de transmissão espiritual da Umbanda e os caminhos espirituais de cada pessoa que são singulares para cada um dentro de cada escola ou comunidade templária.
Para ilustrar a importância da totalidade para termos sentido de unidade, imaginemos que no tempo zero do universo, no início de tudo, formávamos um único "corpo" e que esse corpo explodiu e foi pulverizado em um número imenso de partículas (pequenas partes). Para reconstituirmos nossa idéia de unidade original precisamos levar em conta todas as partículas, não deixando nenhuma para trás, senão sempre ficará faltando um pedaço do todo.
Continuando e explorando a argumento ontológico(é claro que estamos desenvolvendo um raciocínio que é filosófico mas também de cunho teológico, pois estamos falando de espírito para espiritualistas), lembremos que na constituição da nossa consciência como veículo de manifestação do nosso Ser transcendente, necessitamos do outro para realizarmos nossa identidade como sujeitos. Como pessoas encarnadas, nos constituímos em nossa pessoalidade a partir das interações internas de nossa dimensão biológica e kármica e a partir das relações que temos com o outro. O Ser humano se realiza como ser humano quando é reconhecido como tal pelo outro. Precisamos do outro para nos construirmos como sujeitos.
Podemos citar muitas referências de estudiosos da ciência e da filosofia que se dedicam a essa compreensão. Cito apenas alguns, como Humberto Maturana (A Ontologia da Realidade); Alain Badiou (Para uma nova Teoria do Sujeito); Alain Caillé (Antropologia do Dom); Michael ARbib (The construction of Reality); Peter Berger (A construção social da realidade) e, é claro, o inolvidável L. S. Vygotsky (A Formação Social da Mente - Linguagem e Pensamento e outros) cujos trabalhos em psicologia do desenvolvimento evidenciaram a relevância do contato social, necessário inclusive para o desenvolvimento de nossas capacidades cognitivas.
É preciso ainda citar um outro aspecto ontológico e antropológico levantado por Pierre Levy (A Inteligência Coletiva, Tecnologias da Inteligência etc) que é o de que nos constituímos a partir das nossas relações com o outro, mas além disso, precisamos do outro também porque é impossível sermos o outro. Quer dizer, é impossível apropriar-se do conhecimento do outro, na expectativa de tornar o outro supérfluo ou prescindível para nós, porque o outro se forma a partir dos conhecimentos vividos na experiência de vida e não há como se apoderar do conhecimento vivenciado. O que podemos capturar é só o conhecimento discursivo e limitado, que pode ser transcrito nos livros, nada mais. O conhecimento vivenciado pode ser compartilhado na vivência comum, mas aí será reconstruído e ressignificado. A consequência disso é que o outro é sempre imprescindível, não importa se tenha formação teórica ou se seja muito ou pouco capaz no plano do pensamento ou da ação. Levy alerta para o fato de que disperdiçamos, na atualidade, o que há de mais valioso que é a inteligência, o capital coletivo de inteligência que é a soma do conhecimento e da experiência de todas as pessoas. Com base nisso, reclama a urgência na busca de uma reestruturação dos laços sociais para permitir a valorização e aproveitamento da inteligência coletiva.
Fica claro que podemos transpor esses argumentos para a nossa realidade e ver como nos constituímos como umbandistas quando somos reconhecidos uns pelos outros. Também precisamos uns dos outros porque não podemos disperdiçar a vivência e a experiência de ninguém.
Esses foram os argumentos teóricos. Qual o método?
O método para se alcançar a reestruturação dos nossos laços sociais é agir consciente de que reconhecer e respeitar o outro não implica na negação de nossa identidade. Não significa ter que abrir mão de nossas convicções para aceitar outro. Sequer significa que ao ouvirmos o outro com respeito, estamos dando sinal que nossa convicção é fraca. Ao contrário, ouvir o outro com respeito é sinal de estar fortemente convicto de suas próprias posições e acreditar que o diálogo, sem a intenção de convencer ou converter ninguém, é o caminho para a convivência pacífica que gerará em última instância as condições para uma convergência final. (para aprofundar nesses temas sugerimos, A Declaração dos Princípios da Tolerância da UNESCO e o livro "Na Era do Direito" de Norberto Bobbio).
Falamos do conhecimento teórico-prático e dos métodos. E qual a grande medida de disposição que citamos no início e que também é necessária?
A disposição surge do amor, da abertura do coração para a compreensão de que vivemos um mundo transitório e que todas as pessoas, sem exceção, querem como nós, serem felizes. Ainda que sejamos diferentes e plurais, identificamos nossos pontos de contatos nas características universalmente distribuídas. Todos pensamos, sentimos, agimos e reagimos, vivemos no mesmo mundo e sofremos ou gozamos igualmente.
Lembremo-nos de O Mercador de Veneza, de Shakespeare, quando Shylock afirma sua humanidade ao dizer: "Sou judeu. Os judeus não têm olhos? Não têm mãos, sentidos, afetos, sentimentos? Como o cristão, não me alimento, não sou ferido com as mesmas armas, não contraio as mesmas doenças, não sou curado pelos mesmos remédios, não me aqueço no verão e me resfrio no inverno? Se sou ferido, não sangro? Se me fazem cócegas, não rio? Se sou envenenado, não morro? Se sou ofendido, não devo me vingar?"
É claro que do nosso ponto de vista espiritual, queremos ir além. Se sou ofendido, não preciso me vingar. Também não preciso odiar de volta quem me odeia. De preferência, é melhor não alimentar nenhum sentimento negativo de volta. Melhor ainda, se aprendermos a gostar daqueles que não gostam de nós.
Essa disposição e boa vontade só são alcançadas quando conseguimos incorporar a noção de que tudo passa, arrastados que somos todos pelo tempo. Se como espíritos, um dia encontraremos a paz e harmonia, porque não abandonar os sentimentos negativos e buscar tudo isso agora?
Palavra Chave
diversidade - pluralidade - alteridade
Bibliografia
Disponível no texto