Seminário Internacional sobre bioética, deficiência e direitos humanos


Realizou-se no dia 23 de fevereiro de 2006, no auditório do Centro de Integração Empresa-Escola, em São Paulo, o Seminário Internacional sobre Bioética, Deficiência e Direitos Humanos, organizado por várias entidades ligadas à inclusão, especialmente pelo Fórum Permanente de Educação Inclusiva. O evento contou com a presença de dois palestrantes principais: o Prof Dr Gregor Wolbring , professor das Universidades de Calgary e de Alberta, no Canadá, um dos maiores especialistas mundiais em questões de bioética e deficiência e da Profa Dra. Roseli Fischmann, professora de pós-graduação na USP que foi presidente do júri internacional do prêmio Unesco de educação para a paz, além de representantes da CORDE, CONADE e diversas entidades representativas das pessoas com deficiência.


 O Dr. Wolbring trouxe questões importantes relacionadas à nanotecnologia e suas implicações éticas no campo da medicina preventiva, curativa e na recente medicina de aprimoramento (enhancement medicine). Fez também uma importante distinção entre alteração de habilidade (disability) e deficiência (impairment). Enquanto a deficiência se relaciona a um diagnóstico médico de falta ou diminuição de função de um órgão corpóreo, a disabilidade é uma questão social, já que o uso de cadeira de rodas, por exemplo, não representa uma limitação desde que os espaços públicos sejam dimensionados pensando também naqueles que usam esse instrumento de locomoção. Até mesmo o termo “portador de necessidades especiais”, segundo o professor canadense, deveria ser revisto pois o normal e o especial são condições socialmente construídas. Para ilustrar a idéia, mencionou que a associação canadense de portadores de Síndrome de Down não a considera uma doença, mas uma condição de ocorrência natural de arranjo dos cromossomos; com isso, mudam-se os conceitos em suas raízes e, consequentemente, as relações sociais. Outra importante contribuição de seu palestra foi a atenção que chamou para o fato que a percepção que temos do mundo e da vida é o determinante e direcionador de avanços tecnológicos, esses se desenvolvem segundo as expectativas da sociedade e do mercado consumidor.
A Profa. Roseli Fischmann falou da questão dos direitos humanos e demonstrou como valores culturais servem de suporte para as manifestações de discriminação. Apontou a lógica da escassez como uma das responsáveis pela deformação dos laços sociais. Segundo essa lógica, agimos como se os recursos fossem insuficientes para todos, então cada um tenta buscar sua parte, antes que alguém a tome. Por essa visão, para que alguém tenha um bem é preciso faltar para outra pessoa. A alternativa para isso é entender que deve haver recursos para todos, que não podemos aceitar alguns benefícios em detrimento de outros e que necessidades existem em função de valores. Além disso, a pesquisadora da USP afirmou que a luta pelos direitos das minorias não deve ser considerada um ato de altruísmo, já que os beneficiários das conquistas de direitos somos todos nós, pois cada um se enquadra ou pode vir a se enquadrar em algum tipo de minoria, por questões étnicas, religiosas, ideológicas ou de disabilidades físicas ou mentais, nossa própria ou de alguma pessoa querida. Os princípios de igualdade e liberdade em direito e dignidade, do artigo primeiro da Declaração Universal dos Direitos Humanos, são os fundamentos necessários para a prática democrática e cada vez que lutamos por esses direitos estamos fortalecendo a democracia e o Estado que constituímos pela outorga do poder político.
A FTU – Faculdade de Teologia Umbandista esteve representada no evento e contribuíu para a reflexão lembrando que o paradigma atual que orienta o desenvolvimento da nossa sociedade planetária pauta-se em valores individualistas, como os da independência, auto-suficiência e competição. Enquanto os avanços tecnológicos tendem a reafirmar esses valores embutidos em uma ideologia veiculada como de liberdade, é preciso uma ação paralela consciente no sentido de garantir que a evolução se dê em direção à cooperação, à interdependência e à paz. Só assim, poderemos ter certeza que alcançaremos uma sociedade mais justa, com dignidade para todos.
A questão da inclusão é de profundo interesse para todos os umbandistas. Já não se pode estigmatizar as pessoas imaginando que uma condição é decorrente de karma negativo e que cada um deve responder sozinho a essa lei. É preciso entender que fazemos parte de uma coletividade espiritual, que tem um karma coletivo e que a realização social, pessoal e espiritual de cada um é a base para a evolução de todos.

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