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Projeto de Desenvolvimento Institucional da Faculdade de Teologia Umbandista

 

 

 

Curso de Teologia Umbandista

 

Atenção: O projeto que segue é de autoria da Ordem Iniciática do Cruzeiro Divino, sendo a ela reservado todos os direitos autorais conforme a lei vigente.

 

O mesmo projeto está em trâmite no Ministério da Educação e Cultura (MEC).

 

 

 

 

I - Introdução

 

Somos realistas ao admitir que pleitear a criação e o reconhecimento pelo MEC de uma Faculdade de Teologia Umbandista é, no mínimo, uma solicitação inesperada no meio acadêmico tradicional. Afinal, a Umbanda foi considerada até hoje como ocupando uma posição periférica no panorama social, seja sob o aspecto espiritual, onde é vista como amalgamação sincrética, seja sob o ponto de vista social, por atender às maiorias afastadas do conhecimento acadêmico.

 

Sabemos também que dificilmente encontraremos olhos e ouvidos a priori simpáticos à nossa causa; ao contrário, compreendemos a existência de resistências provenientes de julgamentos fundados no passado histórico de perseguição à Umbanda e mesmo da propaganda negativa que ainda hoje serve de alavanca para determinados setores fundamentalistas que, todavia, respeitamos.

 

Se alcançarmos a benevolência do leitor, esperamos chegar ao ponto de demonstrar quem realmente somos e, quem sabe, conquistar o direito de transmitir nossa doutrina aos interessados, com status de formação de nível superior. Da legitimidade da proposta: Reconhecer a Faculdade de Teologia Umbandista significa um avanço social por várias razões que abaixo enumeramos:

 

1º A criação da FTU consolida o princípio democrático de isonomia ao receber o reconhecimento acadêmico, assim como as Teologias Cristãs Católicas e Protestantes. Isso abre espaço para que outras religiões também sejam estimuladas a participar desse meio;

 

2º Entender a Umbanda como tão digna de apreciação quanto qualquer outro setor filo-religioso é propiciar, indiretamente, o diálogo inter-religioso em condições de igualdade, bem como assegurar o direito humano de livre expressão de credo e pensamento;

 

3º Alguns podem imaginar que permitir às teologias e pensamentos religiosos o ingresso ao meio acadêmico poderia promover um empirismo ou pragmatismo que desdenhasse do método científico, depreciando o conhecimento superior como um todo. Opostamente a esta idéia, acreditamos que trazer o Saber Religioso para o nível acadêmico é uma oportunidade de renovar este saber, pondo à prova sua essência no debate e intercâmbio com outros ramos do conhecimento, como o científico, o filosófico e o artístico;

 

4º No momento em que se formaliza o saber religioso, abre-se o canal de comunicação com a sociedade, incluindo as matérias acadêmicas, permitindo o questionamento e revisão recíprocos. Particularmente, na Umbanda, especialmente na Escola de Síntese que representamos, o conhecimento é tido como dialético e direciona-se, pela evolução constante, à realidade entendida como Sabedoria Integral, não-dualista;

 

5º Com a Faculdade de Teologia Umbandista teremos mais um centro de geração de idéias e ações no sentido da Paz Mundial, contribuindo para a aproximação dos povos e para a vitória sobre as diferenças em todos os níveis, já que a Umbanda é amplamente includente, recebendo a pessoas de todas as etnias, níveis sociais, econômicos, culturais e colocando-os em igualdade de condições nas suas práticas ritualísticas;

 

6º A FTU - Faculdade de Teologia Umbandista - tem um duplo compromisso social. Primeiro, o de conquistar um status de cidadania a todos os umbandistas, adquirindo o reconhecimento da sociedade a esse segmento. Estão nos planos da FTU a criação em 2009 de um curso gratuito de ensino fundamental para adultos e um curso tipo supletivo, para o ensino médio, também destinado àqueles que não tiveram a oportunidade de freqüentar os bancos escolares na infância e adolescência. Segundo, o de atuar na sociedade como uma instituição que gera conhecimento no sentido de uma cultura de paz, amplamente includente e universalista, com propostas sociais, econômicas e políticas compatíveis com as necessidades brasileiras e globais.

 

Há fundamentos teológicos suficientes ou doutrina suficiente para a formação de uma Faculdade? Considerando-se a origem recente da Umbanda (no final do Século XIX), é razoável perguntar-se se há corpo de doutrina que sustente o desenvolvimento de uma Faculdade.

Tomemos como exemplo a teologia cristã: esta baseia-se nos seus livros sagrados, particularmente na denominada Tradução dos Setenta que deu forma aos Velho e Novo Testamentos hoje usados pelos cristãos de todo planeta, havendo pouca diferença entre os textos de Igreja Católica e das Igrejas reformadas (por exemplo: os livros deuterocanônicos).

Sobre a Bíblia, construiu-se um sistema de conhecimento, os fundamentos epistemológicos da Teologia Cristã, desenvolvendo-se pelos métodos da Hermenêutica, da Exegese e abstraindo os aspectos filosóficos como a Ética, a Escatologia ou a Pneumatologia. Observe-se que o Judaísmo fundamenta-se igualmente no Pentateuco mosaico, mas possui interpretação totalmente diversa da cristã.

 

A Umbanda, por seu lado, tem a origem de seus sistemas de maneira diametralmente oposta. Sua doutrina não surgiu a partir da figura de um ou vários patriarcas ou legisladores tendo depois sido fundamentada teoricamente por discípulos e propagada às massas como o Cristianismo. A Umbanda faz a trajetória oposta porque surge nas massas, no seio dos remanescentes dos cultos ameríndios, africanos, europeus e asiáticos quando começaram a se manifestar, pela mediunidade, concomitantemente em todo o Brasil, entidades espirituais que apresentavam-se como Caboclos, Pretos-velhos ou Crianças, referindo a si mesmos como ancestrais planetários representantes das potestades divinas e do Tutor Planetário.

 

A partir da vivência espiritual dos vários locais dedicados a essa "nova forma" de contato com o Sagrado foi que a Umbanda começou a adquirir uma face no início do século XX. A teoria ou os princípios filosóficos e herméticos vieram depois, como uma promediação a partir da diversidade dos cultos sincréticos que traziam elementos comuns, genuinamente umbandistas, e com a pesquisa e trabalho de baluartes como WW da Matta e Silva que, a partir de 1954, sistematizou a liturgia umbandista e revelou seus fundamentos esotéricos.

 

Os fundamentos teológicos, portanto, foram colhidos a partir das vivências espirituais pluralistas e universais, desenvolvidos e aprofundados até suas raízes, vindo então a constituir-se em várias linhas de transmissão, que denominamos Escolas (no sentido de pensamento filosófico). Sobre esses fundamentos é possível o debate, bem como a análise epistemológica, hermenêutica etc.

 

Algumas dessas escolas atêm-se mais aos aspectos formais, sincréticos, míticos e à prática ritualística propriamente ditos, outras procuram adentrar nos aspectos mais ocultos ou essenciais, observando a universalidade da Umbanda. A Escola de Síntese, que é o pensamento filosófico da OICD, procura fazer o caminho da Forma à Essência, da Prática à Teoria, do Particular ao Universal. Como conhecimento vivenciado, este saber é transmitido no processo conhecido como Iniciação, no relacionamento mestre-discípulo que se extende por inúmeros anos.

 

A Faculdade de Teologia Umbandista proporcionará aos alunos a possibilidade de uma incursão nas raízes do movimento umbandista, estudando as várias escolas ou linhas de transmissão e os acompanhará na trajetória das manifestações particulares da Umbanda, experimentando a harmonia na diversidade proporcionada pelo sincretismo, até o plano das concepções universais, onde a Umbanda toca a Essência e se harmoniza por princípios com todas as outras tradições filo-religiosas do planeta.

 

Portanto, a Umbanda detém fundamentos doutrinários e teológicos suficientes para a formação de uma faculdade, por uma teoria consistente e convergente e por uma prática amplamente includente que serve de base ideológica para uma proposta de universalização de direitos a todos os seres, bem como um plano de evolução coletiva planetária baseada na interdependência e na compreensão do Sagrado como aspecto inerente a todo ser humano